Arroz colaborativo é "pedra da sopa" na Oficina das Epistemologias do Sul
O ciclo de seminários "Oficinas das Epistemologias do Sul" começou em torno de um Arroz Colaborativo, um arroz improvável, cozinhado entre o artesão social José João Rodrigues,
a Vanessa Sousa e a Teresa Cunha e todas as pessoas que trouxeram ou cuidaram dos diversos ingredientes dispostos na sala. Este arroz colaborativo, cuja base partiu das e dos nano-produtores da bacia do Mondego e da auto produção da aldeia de Campo Benfeito, não tem receita nem tempo predefinido e é feito a várias mãos – mãos e momentos únicos. Por isso, esta oficina foi um convite, um desafio e uma metáfora para, com todos os sentidos ativados (a sessão começou com a cantiga da ceifa, cantada polifonicamente pela Brigada, e a certo ponto ouvimos também um diálogo entre um pastor de Campo Benfeito e as suas vacas), produzirmos novos sentidos a caminho de uma ecologia de saberes. Através destes produtos agrícolas de uma economia solidária que materializam os suis do norte, que se tornaram mais evidentes após a tragédia dos incêndios no centro do país, a conversa desenrolou-se sobre a incapacidade dos conceitos e as teorias conseguirem ler as realidades, linguagens e o conhecimento existente e resistente no interior plural de Portugal. Na senda do projecto ALICE e das epistemologias do SUL, tornou-se também evidente que o saber académico tem sido co-produtor destes silêncios e exclusões. Foram feitos alguns paralelismos entre o que se estava a vivenciar e as premissas da ecologia dos saberes, bem como foram partilhados alguns desafios, angústias e comentadas algumas metodologias de produção de um conhecimento que se quer alternativo. Os cheiros e a confecção do arroz apelaram imediatamente ao afetos e às memórias das famílias, das avós e das cozinhas mas este grão, num grupo de gente vinda de muitos continentes, é também divindade, alimento espiritual, oferenda, símbolo cultural e prato nacional. Metáfora da energia, da prosperidade, da diversidade e da miscigenação, “a sua maior força é a combinação”. No debate, outras metáforas ligadas ao ato de comer e cozinhar emergiram para exprimir as, por vezes muitas, dificuldades de diálogos e trabalho conjunto da academia com a “intervenção” e vice-versa. Serão então os diferentes conhecimentos panelas de pressão que têm de ser geridas com empenho e arte para compor pratos coloridos que as pessoas possam saborear?!
Alguns caminhos para correntes de pensamento alternativo apontados passam pela necessidade de desobedecer para sair de esquemas estabelecidos (como foi necessário para cozinhar este arroz numa sala de seminários); vigilância e cuidado para não cair em dualidades que não traduzem realidades ricas, complexas e muitas vezes paradoxais; cuidado também para não hierarquizar saberes e conhecimentos; apoiar ao desenvolvimento da diferença; aprender ou prestar atenção a novas linguagens (das vacas, por exemplo); mobilizar outros sentidos (“ouvir o arroz”); utilizar metodologias de uma corrente quente de pensamento, de acordo com a ideia de “intelectuais de retaguarda”.
Sandra Silvestre










